MARIELLA GENTILE | architetto
SCENOGRAFIA NO TEATRO MARIA MATOS EM LISBOA – colectivo FRAME

[PT] SOBRE O LEMBRAR E O ESQUECER

What: espetáculo de Paula Diogo, Estelle Franco, Mariana Ricardo, Masako Hattori e Sónia Baptista

Who: em colaboração com o FRAME colectivo

Where: Teatro Maria Matos, Lisboa

Fotos de JOÃO TUNA

* Artigo do TimeOut

É uma criação de Paula Diogo com Sónia Baptista, Estelle Franco e Masako Hattori em torno da memória e da eventual falta dela. É, no fundo, um comprimido de prevenção, que aconselhamos vivamente.  

Há coisas que não podemos esquecer. Quais? Pois, o problema começa aqui. Há outras que simplesmente não esquecemos e nem sequer percebemos bem o motivo. Pois, o problema continua. E, provavelmente, posto este texto e Sobre lembrar e esquecer – espectáculo que Paula Diogo, em conjunto com Sónia Baptista, Estelle Franco e Masako Hattori estreia esta terça-feira no Maria Matos –, o problema deve continuar. 

É o que dá, esse exercício, que logo à partida é um meta-exercício, de tentar esquartejar a memória, de lhe adivinhar uma silhueta. Projecto que parte da vontade de um encontro em cena com estas co-criadoras e intérpretes. Parte disso e de um caderno. Sim, um caderno que a avó de Paula Diogo, que sofreu de Alzheimer, “escreveu nos últimos anos de vida, onde escrevia coisas muito simples como recordar-se do nome, onde tinha estudado, com quem tinha casado. Esse foi o ponto de partida.”, explica. 

Em palco – perante estruturas meio triangulares de madeira, umas sem roupa, onde se vê o vazio, onde se vê o esqueleto; outras vestidas com painéis brancos, sem profundidade – contam-se episódios pessoais, debatem-se momentos culturais que se fixaram, deslizes traumáticos que teimam em não desertar. Há como que uma casa invisível que alberga estas quatro mulheres de culturas e vidas distintas, uma ideia que Paula Diogo classifica como palácio de memória. “Começámos a falar da memória como processo, o primeiro ponto mais claro foi a ideia de palácio de memória enquanto estrutura, que tinha a ver com processos de memorização. Depois fomos evoluindo para cruzamentos, como é que nós as quatro podíamos existir dentro dessa macroestrutura.”, afirma. 

Muita dessa existência serve-se à mesa, uma mesa branca com marcadores, post-its, folhas soltas, no fundo, uma série de objectos que a sociedade inventou para que seja menos imediato esquecer. Sobre lembrar e esquecer aponta nesse caminho, falar sobre a memória é à partida combatê-la, desde a recordação recorrente mais básica (“não me posso esquecer que prefiro chá verde a café”, diz Sónia Baptista a certa altura) ao hit pop de um tal Verão cuja letra nos atira para junto do mar, aquela praia, aquela paixoneta. Às tantas “é quase como uma jukebox de músicas, filmes ou outras zonas mais contemplativas, de reflexão.”, diz Paula Diogo. No limite, é um espectáculo anti-Alzheimer, um espectáculo-prevenção, como que a dizer ao tempo que para nos apanhar vai ter de correr mais um bocado, mais do que é suposto. “Sim, é um bocado uma tentativa de que as coisas perdurem, mas também sabendo que há pouco que possamos fazer em relação a isso, que é isto de tentarmos agarrar coisas que vão fugir. É esse exercício constante de dar corpo a uma coisa que se desfaz.”, conclui. Pois é. O problema não acaba aqui.

Teatro Maria Matos. Ter 21.30. Até 7 de Abril. 6€-12€.